23 de ago de 2010

Vídeo da Embratur foca turistas brancos na Copa

As cores do Brasil na Copa

Publicado por: Luiz Monteiro

O Melrose Arch é um complexo de lojas, restaurantes e cafeterias localizado numa das áreas mais nobres de Johanesburgo. Dois telões foram colocados no local para que as cerca de cinco mil pessoas que se concentram ali diariamente possam assistir aos jogos da Copa. Há muitos turistas e cidadãos sul-africanos que fizeram do lugar uma espécie de ponto de encontro para torcer ao ar livre. Nos palcos, bandas locais e internacionais têm dado “canjas” antes e depois das partidas, para animar ainda mais o ambiente.

Nos últimos dias, vi equipes da Embratur, o órgão responsável para divulgar o turismo no Brasil, na região, entregando folhetos, exibindo vídeos e tocando música popular brasileira nas praças do Melrose Arch. Achei uma bela iniciativa. Afinal, a próxima Copa é nossa, o país tem um potencial espetacular e precisamos sim, aquecer ainda mais nossa economia com o dinheiro que movimenta o turismo. A África do Sul que, para muitos leigos, é um país miserável, cheio de criancinhas esqueléticas passando fome, recebe por ano 3 milhões de turistas a mais que o Brasil. Resultado da boa estrutura que o mercado dos safáris movimenta no país. A propósito, esse cenário de país pobrezinho não é verdadeiro. E muita culpa disso é nossa, da imprensa. A South Africa, como eles dizem aqui, é um país de contrastes, como o nosso. Mas no geral, não fica devendo muito ao Brasil em termos de estrutura. As rodovias aqui se comparam às europeias. A frota de veículos é nova e moderna porque o imposto é razoável. Só para dar um exemplo, muitas viaturas da Polícia Militar são BMW, modelo 320. Algo que, sejamos sinceros, é impensável no Brasil, onde nossos policiais andam com veículos de motor 1.0.

Mas voltando às praças de Melrose Arch, nesta segunda-feira, dia de jogo do Brasil contra o Chile, a turma da Embratur montou duas banquinhas no meio da praça para pintar o rosto de torcedores com a nossa bandeira. Logo uma fila grande se formou. Como em muitos países, aqui nossa seleção recebe um carinho enorme das pessoas. Mesmo jogando esse futebol de resultados. De qualquer forma, massageia nosso ego ver milhares de torcedores não brasileiros usando uniformes da seleção pelas ruas de Johanesburgo. Eu e o cinegrafista Constâncio Coutinho aproveitamos a cena para gravar imagens no local. Mas, de repente, uma moça que assistia ao vídeo da Embratur no telão, enquanto aguardava sua vez de pintar o rosto, pediu licença para fazer uma pergunta. Imaginei que ela fosse pedir para ser filmada ou dar alguma declaração. É comum pessoas se oferecerem para serem entrevistadas por equipes de reportagens. Principalmente durante um evento como o mundial.

Só que a pergunta dela, por uns instantes, me deixou desconcertado. “Existem muitos negros no Brasil?”, quis saber. “É claro que sim”, respondi, para em seguida perguntar o motivo daquela dúvida. A senhora apontou para o telão e disse: “Por que não os vejo ali?”

Pedi licença por uns instantes e fiquei olhando para a tela gigante. Era um vídeo de divulgação de várias capitais: Salvador, Fortaleza, Curitiba. Em todas as cenas, atores de pele clara faziam o papel de turistas no vídeo. Na parte específica da capital baiana, onde os negros são quase 70% da população, os únicos de pele escura no vídeo eram baianas e integrantes do Bloco Olodum. Olhei para a senhora e para a fila onde ela se encontrava. A maioria das pessoas ali era negra. Gente simples que parou para desenhar a bandeira de “Ordem e Progresso” no rosto.

Parecia que eu tinha levado uma pancada. Fiquei meio atordoado em dar uma explicação àquela senhora. Respirei fundo, sorri, e disse que, infelizmente, para o mercado publicitário brasileiro, os negros praticamente não existem, apesar de formarmos quase metade da população do Brasil, “um país de todos”.

Na hora lembrei que em minha última viagem ao Brasil, prestei atenção em um intervalo comercial inteiro de uma grande emissora e não vi nenhum negro nas propagandas. Nem mesmo no bloco comercial de patrocinadores da transmissão de futebol, que inclui cervejarias e bancos como anunciantes, não identifiquei nenhuma pessoa de pele negra. Parei pra pensar e fiquei imaginando um Maracanã em dia de FlaxFlu sem nenhum torcedor negro presente. Uma roda de bar com apenas pessoas de pele alva bebendo cerveja. Ou passar quase uma hora para ser atendido numa fila de banco e não ver nenhum cidadão de pele negra, parado, esperando pacientemente os dois únicos caixas em operação atender os clientes no balcão.

O vídeo de divulgação do Brasil na África do Sul é isso. Mostra um país onde apenas pessoas de pele clara podem desfrutar de uma praia em Fortaleza, passar uns dias num hotel cinco estrelas em Salvador ou fazer um passeio pelas Cataratas do Iguaçu.

Não quero aqui fazer propaganda de cota para negros no mercado publicitário. Pode ser bom para atores negros garantirem uma vaga no mercado de trabalho. Mas pode ser constrangedor para alguém saber que só conseguiu uma vaga num “cast” publicitário porque uma lei obrigou alguém a contratá-lo e, não fosse isso, ele continuaria penando para provar que é capaz de fazer um bom trabalho.

PARA REFLETIRMOS SOBRE AS COTAS!!!

Mas exibir um vídeo sobre um Brasil só com artistas brancos, na África do Sul, onde 80% da população é negra, soa, no mínimo como gafe ou brincadeira de mau gosto. Há muitos problemas a serem resolvidos no país que sedia esta Copa. A burocracia aqui é excessiva, o serviço público é lento, a Aids atinge 10% da população e crimes como assassinatos e estupros são comuns nas favelas. Mas, apesar do pesadelo do Apartheid, a classe média negra africana é enorme, se compararmos ao Brasil. É comum vermos nas ruas de Johanesburgo e das grandes cidades, negros e negras de todas as idades dirigindo BMWs, Mercedes, Audis e Porshes. Não é raro ver negros morando em mansões. Algo que, sejamos sinceros mais uma vez, é raro no Brasil. Aqui, negros almoçam e jantam em restaurantes finos.

Para a classe média brasileira, assistir a um intervalo inteiro na hora do jornal, da novela ou do futebol sem nenhum negro em cena, é normal. Passa batido. Mas para alguém de pele negra que vê milhares de pares dentro dos ônibus, no trabalho ou na praia durante o dia a dia, e não consegue vê-los na TV, que deveria ser o retrato da sociedade, pode ser doloroso. Nunca esqueço de uma mãe que me abordou um dia, em Brasília, enquanto eu gravava uma reportagem na rua. “Sempre que o vejo na TV, digo ao meu filho que ele um dia também pode chegar onde você está”. A mulher era negra. Sentiu-se representada na tela quando viu um repórter negro “aparecer na televisão”.

Vai aqui uma perguntinha para a Embratur: se o objetivo é arrecadar com a venda de passagens aéreas, hospedagem, restaurantes e bilhetes em pontos turísticos, por que não escalam atores negros nas propagandas? Há um mercado fantástico de pessoas assim, no Brasil e no mundo, que tiram férias e têm um dinheirinho no bolso. Mas eles precisam se sentir parte desse mundo turístico.

Eu, por enquanto, só preciso de uma resposta mais convincente para dar à senhora do Melrose Arch.
http://www.institutoadediversidade.com.br/cultura/video-da-embratur-foca-turistas-brancos-na-copa/

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